1958
Brasil, Rio de Janeiro
ProjetoIdiomas disponíveis
Português
Colaborador
Tatiana Sant'Anna/ Ícaro Vilaça
Citado por: 1
"Constituindo-se uma unidade residencial autônoma, provida dos serviços comuns necessários à vida diária de seus habitantes, o conjunto residencial Pedregulho, situado no bairro industrial de São Cristóvão, foi projetado com a finalidade de proporcionar aos servidores municipais de baixa renda habitação barata e situada próxima aos locais de trabalho.
O terreno destinado a esse fim, com área de 52. 142m², está situado na encosta oeste do morro do Pedregulho, sobre o qual se acham localizados os reservatórios de distribuição de água da cidade. Sua configuração é irregular e a topografia muito acidentada, apresentando uma variação de nível de 50 metros.
O programa do conjunto foi estabelecido após minuncioso levantamento das condições existentes e censo dos futuros moradores, realizado pelo Departamento de Habitação Popular da antiga Prefeitura do Distrito Federal. Deste censo, resultou a inscrição de 570 famílias (aproximadamente 2.400 pessoas); cujas condições sociais e econômicas foram analisadas e constituíram a base sobre a qual foi elaborado o projeto. A taxa de ocupação do terreno é de 17,3% e a densidade demográfica de 470 habitantes por hectare.
O projeto compreende quatro blocos de habitação. O bloco "A", com 260 m de extensão, contendo 272 apartamentos de diferentes tipos, está situado na parte mais elevada do terreno e segue de forma sinuosa a encosta do morro. Duas pontes dão acesso a um pavimento ocupado parcialmente pelas instalações do serviço social e da administração, assim como pela escola maternal jardim de infância e teatro infantil. A cada 50 metros aproximadamente, acham-se localizadas as escadas coletivas de acesso aos diversos pavimentos. Os dois pavimentos inferiores contêm apartamentos de uma só peça e os superiores duas ordens de apartamentos duplex de um a quatro dormitórios. A solução duplex foi adotada por ser aquela que oferecia maior rendimento, pela possibilidade de atingir sem elevador os quatro pavimentos (sendo o acesso ao último pavimento feito já do interior do apartamento); e permitir, mediante maior profundidade do bloco, o mínimo de testada, aumentando dessa forma o número de unidades do bloco.
Os blocos "B1" e "B2", com cerca de 80 metros de extensão, com duas ordens de apartamentos duplex, contém 56 unidades de dois, três e quatro dormitórios. O bloco "C", não construído, constitui-se de 12 pavimentos com apartamentos de dois, três e quatro dormitórios e elevador.
Além dos blocos de habitação, o projeto compreende edifícios e instalações para lavanderia mecânica, mercado, posto de saúde, creche, jardim de infância, escola primária, ginásio, piscina, clube e campos de jogos e recreação.
A circulação dos pedestres foi estudada de modo a ficar completamente separada da de veículos, o que permite aos moradores transitar livremente entre todos os elementos do conjunto sem atravessar ruas. Um pequeno túnel, sob a rua que corta o conjunto, permite o acesso entre o bloco "C" e os serviços comuns.
Para segurar uma perfeita ventilação, foram adotadas construções sobre pilotis e diversos dispositivos corretores do excesso de insolação, tais como: quebra-sol, móvel de eixo vertical ou horizontal, peças terracota de diferentes tipos e venezianas de madeira. Foram confiados a Anísio Medeiros, Cândido Portinari e Burle Max, respectivamente, os desenhos dos azulejos que revestem as paredes dos vestiários e posto de saúde, do ginásio, e o mosaico de vidro da escola, cabendo, ainda a Burle Max, o paisagismo."
Ata do Júri da 1º Bienal Internacional de São Paulo, 1953:
Foi concedido o 1º prêmio da Bienal de São Paulo para o conjunto residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho) como projeto de organização de grandes áreas, conferido por um júri internacional, presidido pelo prof. Sigfried Giedion, que assim se manifestou:
'O júri, ao conferir o prêmio ao arquiteto Affonso Eduardo Reidy pelo Conjunto Residencial de pedregulho, considerou esta realização como um exemplo ao Brasil e como uma audaciosa solução de habitação, onde já realizou uma obra social. Essa solução de conjunto constitui um simples exemplo de como toda cidade deveria ser formada. O júri lamenta que a obra fique isolada, surgindo entre bairros formados anarquicamente'.
Lúcio Costa (data desconhecida):
"[…] Esse empreendimento singular – pois não se enquadra, por seu programa social ou sua feição artística, nem muito menos pela persistência requerida para garantir-lhe continuidade, nos seus moldes habituais de planejar e fazer – se deve a duas pessoas : Carmen Portinho, administradora que idealizou e conduz nos mínimos detalhes o empreendimento – inclusive ensinando a morar – e Affonso Eduardo Reidy, que concebeu arquitetonicamente o conjunto e o realizou, ambos assistidos por um corpo técnico dedicado e capaz.
Poderá parecer ilógico que, numa cidade onde o problema da habitação de padrão popular é premente, a municipalidade se dê ao luxo de construir um conjunto residencial com as características do Pedregulho. Logicamente, os dinheiros ali empregados estariam diluídos noutros programas de alcance limitado, sem que a tal diluição houvesse alterado no seu conjunto, de forma mínima que fosse, o quadro geral da situação em que vive o grosso da população. [...].
O Pedregulho é pois simbólico – o seu próprio nome atesta a vitória do amor e do engenho num meio hostil, e a sua existência mesma é uma interpelação e um desafio, pois o dinheiro do povo não foi gasto em vão; em vez de se diluir ao deus-dará, sem plano, foi concentrado, foi objetivado, foi humanizado ali para mostrar-nos como poderia morar a população trabalhadora."
Yves Bruand, 1981:
"A influência de Le Corbusier pode ser notada, antes de mais nada, no cuidado com as operações preliminares: a idéia inicial de construir, num terreno do Departamento de Água e Esgotos, situado no bairro de Pedregulho, um conjunto de alojamentos e serviços anexos destinados aos funcionários municipais, surgiu em 1947, mas o programa definitivo só foi estabelecido depois de um recenseamento dos futuros habitantes e uma pesquisa detalhada sobre suas condições de vida e necessidades. A pesquisa sociológica foi bem ampla e permitiu que Reidy se baseasse em dados seguros, que orientaram com precisão a definição do projeto e a utilização do local: a escolha dos edifícios necessários, o número e composição respectiva dos apartamentos de que era preciso dispor foram decididos em função de critérios objetivos, que deviam levar a uma impecável realização de ordem social, onde o arquiteto não se contentava em projetar e construir; ele intervinha na vida futura do grupo, visando a fazê-lo progredir. É claro que esse desejo de ação efetiva na evolução da sociedade era mais discreto e menos autoritário do que o de Le Corbusier, mas derivava do mesmo espírito. A diferença provinha do caráter essencialmente prático de Reidy, que preferia, em vez de especulações grandiosas um tanto utópicas, um resultado relativamente limitado imediato. Fruto de uma concepção realista a curto prazo,da aplicação comedida e plena de bom senso de princípios teóricos anteriormente enunciados, a unidade residencial de Pedregulho talvez não fosse revolucionária no plano das idéias, mas sem dúvida alguma tratava-se de uma tentativa que assumia proporções de um verdadeiro manifesto e situava-se na mesma linha de pensamento do mestre franco-suíço.
Também a concepção arquitetônica está orientada pelo espírito de classificação sistemática deste. Cada obra é definida por um volume simples, determinado, num conjunto nitidamente dividido em grandes categorias, onde o aspecto formal acusa a diferença de funções: o paralelepípedo é reservado aos prédios residenciais, o prisma trapezoidal, simples ou composto, aos edifícios públicos essenciais, enquanto a utilização da abóbada é limitada às construções esportivas. Contudo, embora a inspiração teórica e o método sejam indubitavemente fruto do racionalismo de Le Corbusier, o vocabulário plástico, embora não renegue uma ascendência idêntica, decorre mais diretamente daquele que Niemeyer elaborou na Pampulha."
Francisco Bolonha, 1985:
"O resultado da maneira reydiana de trabalhar atesta-se nas várias obras que assinou, as mais importantes das quais destinadas a atender ao bem público, incluía aí a sua obra mestra: o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho), em Benfica, empreendimento que o absorveu ao longo de doze anos ininterruptos de apaixonado labor, especialmente na pormenorização dos vários edifícios que integram o conjunto. Sob sua orientação, e surpevisão, e com o apoio irrestrito do então diretor do Departamento de Habitação Popular, da Secretaria de Obras, a engenheira e urbanista Carmen Portinho, o grupo pôde dar por concluída a tarefa. O resultado é uma obra modelar, com as proporções e os espaços arquitetônicos magistralmente definidos, exemplo irretocável de excelente realização da ciência construtiva. Com esse projeto para a classe dos servidores municipais, Reidy é o pioneiro na original experiência social da habitação."
Carmem Portinho, 1999:
"Entre o planejamento e a sua concretização, o Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, Pedregulho, levou de 1947 a 1958. Os dois dos três núcleos residenciais, os blocos A e B, com quatro andares, divididos em dois blocos de 28 apartamentos duplex cada, de um, dois, três e quatro quartos, foram os primeiros a serem inaugurados, em 1950. Os demais prédios foram sucessivamente concluídos e habitados. Não havia mais dúvidas de que Pedregulho, além de ser marco arquitetônico, estava aprovado pelos que nele habitavam.
Entre as inovações, estava o fato de as unidades residenciais, em vez de vendidas, como sempre acontecia com esse tipo de moradia financiada pelo governo, eram alugadas. Eu pregava que a habitação popular, no caso do Pedregulho, deveria ser alugada somente para funcionários da prefeitura e não vendida, porque pelas pesquisas que fizemos verificamos que o operário brasileiro, pelo menos da prefeitura, não tinha poder aquisitivo. Por causa disso, acontecia que para ter uma moradia, ele pedia empréstimos ou ia conseguir o dinheiro não sei de que modo, no fim não podia pagar, acabava entregando o imóvel, deixando a família desesperada sem ter para onde ir. Isto acontece até hoje.
No caso do Pedregulho, optamos pelo aluguel dos apartamentos a funcionários da Prefeitura que trabalhassem nas suas proximidades, que eram descontados em folha pelo Montepio dos Funcionários Municipais. O fiador, no caso, era a própria Prefeitura."
Carmem Portinho, 1999:
"Aproveitando as linhas acidentais do terreno, o imponente volume do Conjunto Habitacional Pedregulho encontra-se equilibrado com a flexibilidade do desenho, avocando formas ondulantes do relevo local. As curvas do prédio principal respondem às curvas da encosta, segundo uma dialética formal, realçando sobremaneira as suas linhas. Foi a primeira grande obra projetada por Reidy onde ele impôs, como excelente arquiteto que era, a característica de buscar soluções integradas que atendessem ao ponto de vista social. Foi o primeiro conjunto construído no Brasil com uma visão de programa e concebido atendendo às possibilidades formais do concreto armado."
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