1961
Reino Unido
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Português
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Paisagem
Colaborador
Osnildo Wan-Dall Jr.
Definição e ilustrações de uma das rubricas (“forças emotivas”) – Paisagem Interior e Compartimento Exterior – do termo Local.
Definição e ilustrações de uma das rubricas (“forças emotivas”) – Ligação e conexão: o pavimento – do termo Local.
Citado por: 1
No momento em que se questionava o modelo moderno de planejamento urbano, Gordon Cullen discorre sobre a observação das cidades por meio de qualidades emotivas. “Townscape” tem como propósito “mostrar que, assim como a reunião de pessoas cria um excedente de atrações para toda a coletividade, também um conjunto de edifícios adquire um poder de atração visual a que dificilmente poderá almejar um edifício isolado”.
O título da publicação, “Paisagem Urbana” na língua portuguesa, é homônimo ao termo criado pelo autor em seus diversos trabalhos para a revista The Architectural Review, e que posteriormente é desenvolvido como tema desta publicação.
Em 1971, o livro teve uma nova edição, sob o título de “The Concise Townscape”, a partir da qual seu conteúdo foi reduzido aos dois primeiros capítulos (“Definições” e “Aplicações”). A reedição conta, além de um posfácio, com uma segunda introdução, onde o autor insiste que a essência da paisagem urbana consiste em “popularizar o mais possível a Arte do Meio-Ambiente, partindo do principio que uma maior participação emocional das pessoas conduzirá necessariamente ao aperfeiçoamento do jogo.” Lamenta ainda a falta de conciliação do progresso urbano com a noção de escala humana nos projetos urbanos de então, apontando um tipo de “decoração” urbana superficial preocupada muitas vezes com questões meramente de preservação histórica.
Os referidos dois capítulos do livro descrevem e exemplificam os elementos que constituem a paisagem urbana, respectivamente. O primeiro, “Definições”, sistematiza o conhecimento do termo em três categorias fundamentais, comparando-as com a tradição funcionalista do planejamento urbano: óptica (visão serial), em que a paisagem urbana pode ser captada a partir de descobertas que experimentamos ao atravessarmos uma cidade; local, onde são descritos os diferentes espaços que servem como “forças emotivas” a algumas possíveis apropriações feitas pelas pessoas a determinados locais; e conteúdo, que são as qualidades intrínsecas das relações entre as várias subdivisões da paisagem (metrópole, cidade, arcádia, parque, zona industrial, zona rural e solo virgem). O segundo capítulo do livro, por sua vez, aplica os termos definidos o capítulo anterior a exemplos concretos.
A publicação é considerada uma das leituras mais importantes sobre o desenho urbano no século XX, justamente por levantar uma preocupação com o espaço urbano ao observar que o homem “necessita de emoção, do dramatismo que é possível fazer surgir do solo e do céu, das árvores, dos edifícios, dos desníveis e de tudo o que o rodeia, através da arte do relacionamento”.
CULLEN, Gordon. Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 1996.
MARCHIGIANI, Elena. Gordon Cullen, Townscape, 1961: i molteplici paesaggi della percezione. In: BIAGI, Paola Di (org.) I classici dell’urbanistica moderna. Roma: Donzelli, 2002.Gordon Cullen, 1961:
“[...] Efetivamente, uma cidade é algo mais do que o somatório dos seus habitantes: é uma unidade geradora de um excedente de bem-estar e de facilidades que leva a maioria das pessoas a preferirem – independentemente de outras razões – viver em comunidade a viverem isoladas.
Considere-se, agora, o impacto visual da cidade sobre os seus habitantes ou visitantes. O propósito desde livro é mostrar que, assim como a reunião de pessoas cria um excedente de atrações para toda a coletividade, também um conjunto de edifícios adquire um poder de atração visual a que dificilmente poderá almejar um edifício isolado.
[...] No caso do conjunto [edificado], imaginemos o percurso do transeunte: ao afastar-se pouco a pouco dos edifícios depara, ao virar de uma esquina, com um edifício totalmente inesperado. É normal que fique surpreendido ou até mesmo espantado; mas a sua reação deve-se mais à composição do grupo do que a uma construção específica.
[...]
Existe, sem dúvida alguma, uma arte do relacionamento, tal como existe uma arte arquitetônica. O seu objetivo é a reunião dos elementos que concorrem para a criação de um ambiente, desde os edifícios aos anúncios e ao tráfego, passando pelas árvores, pela água, por toda a natureza, enfim, e entretecendo esses elementos de maneira a despertarem emoção ou interesse. Uma cidade é antes do mais uma ocorrência emocionante no meio-ambiente.
[...] quando olhamos para uma coisa vemos por acréscimo uma quantidade de outras coisas. [...] Aliás, para além da sua utilidade, a visão tem o poder de invocar as nossas reminiscências e experiências, com todo o seu corolário de emoções, fato do qual se pode tirar proveito para criar situações de fruição extremamente intensas. São aspectos paralelos como este que nos interessam, pois, se realmente o meio-ambiente suscita reações emocionais – dependentes ou não da nossa vontade –, temos de procurar saber como isto se processa. Há três aspectos a considerar:
1. ÓPTICA. [...] embora o transeunte possa atravessar a cidade a passo uniforme, a paisagem urbana surge na maioria das vezes como uma sucessão de surpresas ou revelações súbitas. É o que se entende por VISÃO SERIAL.
[...] O cérebro humano reage ao contraste, isto é, às diferenças entre as coisas e, ao ser estimulado simultaneamente por duas imagens – a rua e o pátio – apercebe-se da existência de um contraste bem marcado. Neste caso a cidade torna-se visível num sentido mais profundo; anima-se de vida pelo vigor e dramatismo dos seus contrastes. Quando isto não se verifica, ela passa despercebida, é uma cidade incaracterística e amorfa.
[...]
2. LOCAL. Este segundo ponto diz respeito às nossas reações perante a nossa posição no espaço. [...] Este tipo de percepção integra-se numa ordem de experiências ligadas às sensações provocadas por espaços abertos e espaços fechados que nas suas manifestações mórbidas são a agorafobia e a claustrofobia. À beira de um precipício de 150 metros tem-se uma percepção de localização bem definida enquanto no fundo de uma caverna se experimenta certamente uma sensação de clausura.
[...]
3. CONTEÚDO. Relaciona-se este último aspecto com a própria constituição da cidade: a sua cor, textura, escala, o seu estilo, a sua natureza, a sua personalidade e tudo o que a individualiza. Se se considerar que a maior parte das cidades é de fundação antiga, apresentando na sua morfologia provas dos diferentes períodos de construção patentes nos diferentes estilos arquitetônicos e nas irregularidades do traçado, é natural que evidenciem uma amálgama de materiais, de estilos e de escalas.
[...] O homem tem em todos os momentos a percepção da sua posição relativa, sente a necessidade de se identificar com o local em que se encontra, e esse sentido de identificação, por outro lado, está ligado à percepção de todo o espaço circundante.
[...] Hoje em dia o ambiente encontra-se totalmente fragmentado em zonas desconexas: casas para um lado, árvores para o outro, isto é, zonas totalmente desligadas umas das outras, como uma série desarticulada de notas musicais tocadas no piano com um único dedo. O objetivo deste livro é tentar integrar estes elementos que compõem o ambiente numa relação expressiva, por forma a que, utilizando, embora, as mesmas notas, surjam acordes e seqüências coerentes. [...] todo este livro é em si um conjunto de exemplos de ligação e conexão [...].”
Elena Marchigiani, 2002:
Em 1961 Gordon Cullen publica Townscape (1). O índice, na forma de uma longa lista de termos aparentemente díspares de vez em vez referidos a maneiras de observar, materiais e lugares, nos coloca em um mundo de palavras e temas em comum, como declara o título, a partir do que é descrito como uma premissa verdadeira: a cidade é uma forma particular de paisagem. Um conceito ´polissêmico´(2), aquele da paisagem, que contém uma diversidade inquietante de implicações e contestações. Entre eles, o apelo a um outro assunto denso e problemático: a percepção como ferramenta de leitura – e de projeto – do espaço.
Um livro complexo e estimulante, que lida com distintas escalas na tentativa de reconstruir as implicações diferentes de um neologismo que, ao se prosseguir na análise, revela a capacidade de abrir novos campos de reflexão seja sobre o planejamento e os seus instrumentos analíticos e projetuais, seja sobre as transformações espaciais da cidade e do território como um todo. Uma capacidade que talvez possa nos ajudar a compreender a atenção que, na Itália, no momento da discussão disciplinar compreendido entre meados e fins dos anos cinqüenta, foi direcionada às categorias interpretativas do paisagem urbana, permitindo-lhes novas interpretações e configurações. Uma atenção que parece emergir hoje, revelando a atualidade de um estilo de análise e de projeto não sem potencialidades e riscos.
[...] Deve-se referir às ´faculdades visuais, uma vez que é quase inteiramente através da visão que o ambiente é conhecido´, por meio da evocação de ´memórias´ e ´experiências´ sensíveis.
Para que a percepção possa ser tomada como um dispositivo concreto de projeto devem, então, ser definidas as formas em que ´o ambiente produz uma reação emotiva em nós, com ou sem a nossa vontade´. Cullen identifica três chaves interpretativas ter do espaço urbano: a serialidade da visão em movimento, a relação corporal com as características físicas do local e o exame do seu conteúdo, ou seja, os materiais e os elementos individuais que o compõem. Uma vez definidas as ferramentas, resta sintetizar as informações coletadas através do poder da imaginação. Mas, como enfatiza o autor:
´Esta é a teoria dos jogos, ao fundo. Na verdade, a parte mais difícil vem a seguir: a arte do jogo. Como em todos os outros jogos há movimentos regulares e outros sugeridos pela experiência e pelo que precede. Nas páginas seguinte foi feita uma tentativa de classificar esses movimentos como uma série de casos relacionando-os aos três tópicos principais, e mais adiante de mostrar suas aplicações por meio de estudos de cidades e propostas de planejamento.´
Este é o objetivo da primeira parte do livro (3), onde um rico repertório de termos e atributos relativos a espaços urbanos abertos – ruas, praças, jardins – é construído a partir da observação direta de casos concretos, a fim de discutir e ilustrar os instrumentos da nova arte. Isto recorrendo a uma linguagem que oscila continuamento entre descrição e enunciação de requisitos do projeto, reflexão pessoal e categorização teórica.
Na parte seguinte (4), termos atributos são traduzidos em materiais e princípios projetuais, referindo-se a exemplos positivos e negativos do tratamento do espaço público nas cidades e vilas inglesas, por vezes acompanhados por anotações gráficas relativas a possíveis soluções para os problemas destacados.
Nas últimas seções (5) estão finalmente recolhidos estudos e propostas para lugares específicos, duas partes que na reedição inglesa de 1971 (6) foram eliminadas provavelmente por razões editoriais, mas não só. Trata-se de fato das partes que, talvez, o autor gostaria de ter atualizado, ou contudo aquelas mais diretamente sujeitas a mal-entendidos para um livro que não parecia querer-se simplesmente figurar como uma coleta de soluções a serem reproduzidas, quanto mais como um repertório de referência, de critérios interpretativos e projetuais dotados de generalidades, que visam definir o campo, o método e os objetivos de uma nova aproximação à paisagem urbana.
[...]
O papel que o autor atribui a Townscape é claramente informativo e educativo, mesmo que não relacionadas com uma disciplina estabelecida, mas àquela que deseja configurar-se como uma nova perspectiva de pesquisa. O texto não fornece códigos únicos, mas sugestões e exemplos. Não aspira a construir modelos mas sim estabelecer os princípios da arte [...] O livro identifica o vocabulário e a sintaxe para a descrição e a avaliação do contexto, compreendendo-os com explorações projetruais que assumam a função de declarar de maneira intencionalmente vaga – não reduzida ou codificada em regras espaciais rígidas –critérios para a ação.
Isto recorrendo-se à tecnicas de representação de acordo com a prioridade atribuída às faculdades visuais. São pouquíssimas plantas, cortes e perfis, assim como são poucos os diagramas, enquanto esboços verídicos de ambientes urbanos históricos ou de propostas de projetos, histórias gráficas do tipo quadrinhos (o autor os define como rabiscos) e fotografias assumem o papel de instrumentos de ilustração através da exposição da realidade observada [...].
(1) G. Cullen, Townscape, The Architectural Press, London 1961.
(2) C. Blanc-Pamard-J. P. Raion, Paesaggio, in Enciclopedia, Einaudi, Torino 1980, X, PP. 320-40.
(3) Definições na edição original.
(4) Aplicações na versão original.
(5) Estudos de caso e Propostas na versão original.
(6) G. Cullen, The Concise Townscape, Architectural Press, London 1971. Na reedição o autor inclui uma nova introdução e um breve posfácio.
MARCHIGIANI, Elena. Gordon Cullen, Townscape, 1961: i molteplici paesaggi della percezione. In: BIAGI, Paola Di (org.) I classici dell’urbanistica moderna. Roma: Donzelli, 2002.
Texto original em italiano (tradução do colaborador).
Teresa V. Heitor, (s/d):
“[...] o ponto de referência da abordagem paisagística de Cullen, é a capacidade individual de percepção visual: a cidade como objeto da percepção dos seus habitantes.
O olhar atento e curioso de um observador não ocioso, capaz de se surpreender e interessar-se pelo que experimenta é, na sua opinião, o necessário para compreender a forma urbana, porque 'em qualquer análise de um lugar urbano é imprescindível estabelecer um diálogo entre o espaço urbano e os elementos que caracterizam a sua vida'.
[...] Cullen considera Townscape como a 'arte de relacionar edifícios', bem diferente do Town Planning ou planejamento urbano. O planejamento urbano é uma manifestação da necessidade de produzir ordem, perfeição e concordância, mas o Townscape determina o sucesso de uma cidade através da sua capacidade de despertar atitudes emotivas - entusiasmo e dramatismo - em função da justaposição de elementos físicos - escala, textura, cores, estilo, singularidade.
Para este autor a complexidade visual é o aspecto fundamental deste processo. Com base em esquemas gráficos e fotografias, descreve os elementos visuais que formam o espaço urbano e o modo de os entender. Propõe uma análise sequencial do 'cenário' urbano através do recurso à visão serial como meio de transmitir a experiência urbana, isto é, o jogo constante entre a percepção dos lugares.
[...] As suas leituras são vistas como um exercício de análise pictórica baseado no levantamento de características e pormenores superficiais e visualmente perceptíveis. Os instrumentos utilizados são para além do lápis, o bloco de notas e a máquina fotográfica, a perspicácia, a sensibilidade e o filtro artístico do autor.
Cullen mantém o parecer de que a incorporação da experiência pessoal na análise urbana favorece uma concepção poética da própria análise. Ao deixar de ser um exercício estritamente descritivo, dirigido para a explicação dos 'porquês' da forma urbana, a visão pessoal passa a ser imediatamente integrada na dinâmica do processo criativo.”
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